22 de dezembro de 2016, 09:23

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Elias de Oliveira Sampaio

Coluna: Políticas Públicas

Elias de Oliveira Sampaio é autor do livro Política, Economia e Questões Raciais - A conjuntura e os pontos fora da curva, 2014-2016, ex-secretário estadual de Promoção da Igualdade Ravial, economista do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, doutor em Administração Pública e mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, professor colaborador do Programa de Gestão das Organizações (PGO) da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. Foi diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia - PRODEB (2008 – 2011), vice-presidente de Tecnologia da Associação Brasileira de Entidades de TIC (ABEP) 2010 – 2011, além de professor universitário nas áreas de Teoria Econômica, Desenvolvimento Regional, Administração Pública e Políticas Públicas. Elias Sampaio escreve uma coluna semanal neste Política Livre às quartas-feiras.

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Mesmo para os mais otimistas, será muito difícil não imaginar que os próximos dois anos serão de muita dificuldade para o povo brasileiro em geral e, exceto pelos rentistas e os representantes do circuito superior da economia que não possuem nenhuma relação com a sorte de corrupções que vem sendo expostas no país, os cenários são os piores possíveis.

Para os mentores e executores do impeachment forçado de Dilma e a sua vassalagem de batedores de panelas, resta a auto crítica e a responsabilização por terem colocado no poder o governo indireto de Michael Temer que, além de aprofundar a crise política, desdobrando-a para uma crise entre os Poderes da República, não tem tido resultados eficientes na gestão macroeconômica e, consequentemente, tem gerado expectativas negativas nos agentes que vislumbravam no novo arranjo do Executivo Federal a única saída para a recessão que já dura longos três anos.

Além das feições sombrias do próprio presidente e do seu septuagenário núcleo de auxiliares mais próximos, já se percebe também a maneira atônita com que o mandatário maior da Nação tem observado o esvaziamento da sua já pouca legitimidade política, dada a paulatina deterioração mensal de sua gestão, na maioria das vezes, por denuncias relativas à Operação Lava Jato e congêneres. O fato é que com apenas seis meses de mandato e a perspectiva de mais dois anos, a sensação que se tem é de fim de governo. A incapacidade de nomear Antônio Imabassahy para substituir Geddel Vieira Lima no ministério da Articulação Política e a retumbante derrota do governo no projeto das dívidas dos Estados é um sinal mais do que emblemático de que a curva de poder de Temer junto à sua principal base de sustentação política, o Congresso Nacional, já está passando por uma importante inflexão negativa.

No entanto, se para o atual governo o clima já é de fim de mandato, para o projeto político que fora substituído, há seis meses, as perspectivas também não nos parecem das melhores. A inexistência de uma nova liderança para fazer o enfrentamento ao chamado governo golpista com a devida representatividade social para retomar o projeto popular e democrático iniciado pelo PT e seus aliados orgânicos em 2003, é hoje o nó górdio a ser desatado por aqueles que acreditam que o modelo ultra ortodoxo ora gestado por Temer, e os seus, não é a melhor opção de desenvolvimento para o país. Nesse contexto, o antigo arranjo de poder que comandava o país nos últimos anos parece ainda estar atordoado, perplexo e aparentemente sem rumo diante da complexidade da conjuntura e da necessidade de transformações estruturais endógenas em meio a um processo profundamente dialético e paradigmático.

Só isso pode explicar a crença quase sebastianística de que Lula ainda será uma opção competitiva nas eleições de 2018. Do mesmo modo, nos parece ser ilusório também que os arranjos políticos partidários nas gestões subnacionais remanescentes da era petista ainda terão alguma sustentabilidade no médio prazo, posto que muitos dos partidos fiadores desses governos são os mesmos que sustentam o núcleo de poder dos chamados golpistas em nível federal.

No caso de Lula, maior liderança da centro esquerda surgida no país nos últimos cinquenta anos, a nossa perspectiva é de que sua biografia e história não merecem correr o menor risco de um derrota eleitoral, ou até mesmo, o enfrentamento de uma campanha política e eleitoral que necessariamente será desigual e massacrante. Se no ambiente de redemocratização e abertura política de 1989 as mesmas forças políticas que atualmente apearam o PT do poder central se utilizaram, à época, da perversidade da exposição de sua filha Lurian, ainda adolescente, hoje, no ambiente de maior conservadorismo e reacionarismo institucional e político por que passa o país, a meta não será apenas a derrota do político Lula, mas principalmente, do homem, da sua história e do mito Luiz Inácio Lula da Silva.

No que se refere aos arranjos políticos de sustentação aos governos subnacionais petistas ou daqueles que ainda transitam em sua órbita, acreditamos que apenas eventos muito inusitados poderão fazer com que os seus algozes em nível nacional não reproduzam as suas alianças eleitorais em níveis regionais e subnacionais nas próximas eleições. Na Bahia, por exemplo, os dealers da política terão que fazer um exercício muito complexo para conseguir que as agremiações que são parte da estratégia de manutenção do governo federal e de governos estaduais importantes de oposição ao PT marchem, aqui, de forma antagônica tanto nas eleições presidenciais quanto de seus respectivos governos locais mais prioritários.

Nesse aspecto, as composições eleitorais de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Pernambuco serão cruciais para a decisão de partidos como PSD, PSB e PP, no que se refere as suas escolhas no resto do país. No caso baiano, em particular, essa questão se torna ainda mais crítica pela centralidade estrutural que esses partidos possuem na formação do atual governo, na chapa que fora vitoriosa em 2014 e na estratégia eleitoral de 2018. Não por acaso, as suas principais lideranças no estado já estão a fazer juras de amor e fidelidade para o pleito que se dará daqui a dois anos, prazo mais do que longo para as nuvens que conformam a dinâmica da política.

Correndo por fora e para piorar esse cenário, há ainda a candidatura do prefeito de Salvador ao governo do estado. Além da própria e retumbante vitória no maior colégio eleitoral do Estado, ACM Neto cravou seus ferrões na maioria dos grandes municípios, inclusive, no segundo e terceiro colégios eleitorais, Feira e Conquista e, em Camaçari, o segundo maior PIB, indicando secretários e auxiliares dos novos prefeitos. De lambuja, exercendo habilmente sua liderança política, étnica e geracional, colocou toda a sua possível cadeia sucessória dos próximos dois anos sob seu total controle, reduzindo a quase zero, as possibilidades de contaminação na negociação de sua chapa majoritária por algum movimento externo indesejável por parte de seus principais partidos apoiadores, o PMDB e o PSDB.

Registre-se por oportuno e curiosidade que, exceto pela diferença na altura, o prefeito; o vice-prefeito eleito e o quase presidente da Câmara Municipal de Salvador para o biênio 2017/2018, Léo Prates, gestado por ACM Neto, parecem ter saído da mesma família consanguínea visto que, até fisicamente, assemelham-se, como se irmãos fossem. No mais, é aguardar a profundidade e extensão das delações da Odebrecht e outras que estão por vir e que podem alterar, significativamente, todos esses cenários gerando “choros e ranger de dentes!”.

Da parte do colunista, recesso natalino e de fim de ano. Férias nas semanas seguintes e novos desafios para 2017. Boas festas e muito Axé!

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