3 de outubro de 2016, 11:24

COLUNISTASE agora José?

Elias de Oliveira Sampaio

Coluna: Políticas Públicas

Elias de Oliveira Sampaio é ex-secretário estadual de Promoção da Igualdade, economista do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, doutor em Administração Pública e mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, professor colaborador do Programa de Gestão das Organizações (PGO) e do Programa de Mestrado em Políticas Públicas, Gestão do Conhecimento e Desenvolvimento Regional (PGDR) da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. É também colaborador do Núcleo de Pós-Graduação em Administração da Ufba, foi diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia - PRODEB (2008 – 2011), vice-presidente de Tecnologia da Associação Brasileira de Entidades de TIC (ABEP) 2010 – 2011, além de professor universitário nas áreas de Teoria Econômica, Desenvolvimento Regional, Administração Pública e Políticas Públicas. Elias Sampaio escreve uma coluna semanal neste Política Livre às quartas-feiras.

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O resultado das eleições municipais de 2016 em Salvador merecem reflexões. Muitas reflexões!  A vitória de ACM Neto em primeiro turno não pode se vista como um ponto fora da curva na história política recente na cidade, e no estado, em virtude da crise do governo do PT e dos partidos que realmente acreditavam em seu projeto político e que fizeram parte de sua base de sustentação nos últimos anos. Ao contrário, a forma e o conteúdo desse desfecho eleitoral na maior cidade do mais importante estado governado pelo PT há mais de duas gestões, nos impõe uma avaliação política que remonta ao ano de 2007.

Naquele ano, a morte física de Antônio Carlos Magalhães e expectativa da morte simbólica e institucional de seu maior legado político, o carlismo, foi precedida pela esmagadora vitória de Jaques Wagner, em primeiro turno, para o governo do estado da Bahia e a reeleição de Lula, apesar da crise do mensalão, em 2006. No entanto, por mais exitoso que foi o governo petista de Wagner no âmbito estadual, em Salvador, o PT e todos os partidos que a ele se alinharam para conquistar a capital, foram fragorosamente derrotados em três sucessivas eleições municipais: 2008, 2012 e 2016.

Chega a ser desconcertante observar que o alinhamento de forças federais e estaduais durante mais de dez anos teve efeito quase marginal sobre os resultados eleitorais majoritários em Salvador. Em 2008, apesar do então candidato petista Walter Pinheiro ter ido, pela primeira vez ao segundo turno, foi derrotado, mesmo com apoio do governador, do presidente e da força do 13, à época, em todas as zonas eleitorais da cidade pelo então prefeito João Henrique, cuja gestão era considerada uma das piores do país.

Em 2012, foi a vez de Nelson Pellegrino ir ao segundo turno enfrentando pela primeira vez ACM Neto, ainda com mais apoio político-institucional do que Walter Pinheiro. Com as vitórias de Wagner ao governo estadual em primeiro turno em 2010 e de Dilma em nível federal, era uma questão de honra vencer em Salvador, mas não foi isso que aconteceu. Registre-se, por oportuno, que o pequeno herdeiro do carlismo e tudo que isso representa em termos de conservadorismo, inicia a disputa pongando acanhadamente no simbolismo de seu avô, mas também, se vacinando contra o discurso de seus opositores sobre sua condição elitista e étnico-racial ao escolher Célia Sacramento, uma mulher negra como sua vice. Tal movimento, inclusive, foi prontamente respondido à altura por Pellegrino ao integrar Olivia Santana a sua chapa e pelo radialista e ex-prefeito Mario Kertész com Nestor Neto.

O fato é que ACM Neto derrotou a esquerda, a base dos governos estadual e federal e, de lambuja, os representantes da comunidade negra de Salvadores aliados a esses projetos políticos. Constituindo-se, a partir daí, no grande opositor dos governos petistas nos últimos quatro anos. Essa foi a condição necessária para a sua vitória acachapante nesse ano de 2016. Com efeito, se nas condições adversas de 2008 e 2012, o liliputiano político baiano conseguiu fazer frente e derrotar os seus oponentes nos momentos da pretensa hegemonia da centro-esquerda no estado, temos que convir que, com a crise do governo Dilma e do PT, a sua força política tivesse um up grade e, assim, consolidasse a condição suficiente para a sua maiúscula vitória. Por isso, inclusive, que diferentemente de 2012, ele se deu o luxo de atirar à lata do lixo, o habeas corpus preventivo que utilizara na figura simbólica de sua vice-prefeita, substituindo-a neste pleito, pelo controverso Igor Kanário!

A síntese de tudo isso é que os resultados das urnas impõe aos atores sociais e políticos de nossa sociedade a obrigação de rever métodos, estratégias e ações se quiserem, realmente, preservar o projeto popular e democrático que teve vez em nosso país a partir da vitória de Lula em 2002 e, pelas bandas da boa terra, com Wagner em 2006.

A vitória de ACM Neto não significa apenas a volta de um carlismo modernizado e jovialmente envernizado com todos os seus conceitos e modus operandi da política e da visão de mundo que  caracteriza o velho ACM e a maioria daqueles que o acompanhava. Pior: demonstra que a sociedade soteropolitana é plenamente identificada com ideologias conservadoras e reacionárias e que os treze anos que vivemos sob a égide de uma outra forma de ver as pessoas, a sociedade e a política não foram suficientes para mudar, em profundidade, a maniera de pensar do soteropolitano médio e por extrapolação, grande parte dos baianos. Os resultados das eleições nos principais colégios eleitorais do interior do estado são emblemáticos a esse respeito.

No que tange os atores sociais que fazem o enfrentamento ao modelo masculino, branco e elitista que caracteriza a forma neto-liliputiana de governar, a tarefa não é das mais simples e menos espinhosas. Como justificar os quase 75% dos votos válidos dos eleitores de numa cidade de maioria negra, de mulheres e de moradores de guetos que representam o oposto radical de tudo que ACM Neto e sua entourage representa?

Como acomodar o discurso defendido pelos movimento sociais que historicamente batem na tecla de que o prefeito recém reeleito representa a conformação do machismo, do racismo e do elitismo da sociedade baiana e de salvador, após uma vitória tão expressiva?

Será que o modelo de acordos e coalizões político eleitorais e de gestão que estão sendo levados a cabo pela centro-esquerda que conquistou o poder a partir de 2002 e 2006 não impregnou, demasiadamente, com típica ilusão de classe e com a conhecidíssima cegueira étnica e racial, os principais atores responsáveis pela direção de todos esses processos?

Responder essas questões significa desatar o nó górdio cujo desenlace se faz necessário para se compreender o verdadeiro ethos da sociedade baiana. Essas são tensões que põe em confronto os aspectos concretos da real politik e os aspectos ideológicos mais abstratos que suportam, e as vezes subordinam, alguns dos principais debates políticos na cidade que, pelo que temos visto na história política recente, restam-se por se comprovarem ineficazes e inefetivos diante da concretude das disputas eleitorais.

Como uma espécie de resposta a ausência de negros ou negras nas chapas majoritárias, restou resultados simbólicos muito importantes. A estrondosa votação de Hilton Coelho do PSOL. A reeleição do vereador Suíca em primeiro lugar na maior coligação de oposição ao prefeito, liderada pelo PT e PC do B, seguido de Marta Rodrigues e Moisés Rocha e a manutenção do mandato do vereador Sílvio Humberto, importante e genuíno representante do movimento negro e dos meios acadêmicos baianos e brasileiros, com um crescimento eleitoral de mais da metade de sua votação em 2012, colocando-o na condição de maior liderança política do PSB municipal, uma vez que, nenhum dos seus companheiros de chapa, o primeiro suplente de deputado federal Capitão Tadeu, por exemplo, sequer chegaram a nota de corte mínima do quociente eleitoral.

E agora José?

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