26 de outubro de 2016, 08:00

COLUNISTASCartomante

Elias de Oliveira Sampaio

Coluna: Políticas Públicas

Elias de Oliveira Sampaio é ex-secretário estadual de Promoção da Igualdade, economista do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, doutor em Administração Pública e mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, professor colaborador do Programa de Gestão das Organizações (PGO) e do Programa de Mestrado em Políticas Públicas, Gestão do Conhecimento e Desenvolvimento Regional (PGDR) da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. É também colaborador do Núcleo de Pós-Graduação em Administração da Ufba, foi diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia - PRODEB (2008 – 2011), vice-presidente de Tecnologia da Associação Brasileira de Entidades de TIC (ABEP) 2010 – 2011, além de professor universitário nas áreas de Teoria Econômica, Desenvolvimento Regional, Administração Pública e Políticas Públicas. Elias Sampaio escreve uma coluna semanal neste Política Livre às quartas-feiras.

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Estava escrito, mas a prisão de Eduardo Cunha não é um ponto final no processo da lava jato e sim um grande ponto de seguimento acompanhado de muitas interrogações. A principal delas é qual será o limite do juiz Sérgio Moro de aprisionamento dos bigs shots da política brasileira?

Depois de manter encarcerado em Curitiba parte significativa do PIB nacional e alguns prepostos e intermediários do entourage do poder das últimas décadas, os últimos meses foram marcados pelo início de um novo patamar da versão brasileira da operação mãos limpas italiana, coincidentemente com as prisões dos ex ministro Guido Mantega, já em liberdade, e de Antônio Palocci, figuras de significado emblemático para o ambiente do planalto pré- impeachment, depois de  José Dirceu.  Agora, ao menos aparentemente, muda-se o eixo ideológico das movimentações de Moro ao levar para Curitiba o ex presidente da câmara de deputados e um dos caciques do PMDB, partido do presidente da república e do atual núcleo que circunda o poder federal.

O fato é que após quase dois anos de viver no olimpo da política em Brasília, Cunha se transformou num walking dead,  alvo de vaias, xingamentos e até sopapos públicos. O ex todo poderoso passou a viver como um pária, inclusive do mundo virtual ao ser excluído do grupo de what´s up de seu partido, e com a espada da justiça e da opinião pública a milímetros de sua cabeça. Mas, sua esperada prisão representa também uma espécie de “habeas corpus político” para os próximos passos da república de Curitiba.

Com efeito, após o encarceramento por tempo indeterminado do inimigo público número 1 do atual momento da república brasileira, Sergio Moro, a priori, retira de si e de todo o arranjo que se articula em torno da lava jato, a pecha de inquisidor mor do PT e de suas figuras mais proeminentes. Aditivamente, traz para o seu controle institucional uma arma que possui força para derrubar os pilares da república. Tremem os seus inimigos e, principalmente, os seus ex amigos que, agora, passaram a ser chamados de traidores, a começar por aqueles que dão expediente no palácio do planalto e nas presidências do senado e na câmara federal.

A prisão do ex deputado pode ter o mesmo efeito da abertura de uma imensa caixa de pandora posto que ninguém tem o controle sobre o que poderá sair de sua boca e de seus interlocutores que ainda restem, independente dele fazer isso sob o instituto da delação premiada ou não. Na verdade, não é possível se avaliar se o potencial bélico de suas informações será maior vindo por vias institucionais da justiça ou a partir da rapidez de vazamentos seletivamente bem direcionados.

Não pode ser desconsiderado, por exemplo, o fato de que sua mulher Claudia Cruz, também ré na lava jato, foi jornalista do mais poderoso veículo de comunicação do país, a Rede Globo, e nada garante que para fugir na cadeia ou mesmo para embaralhar as cartas desse pesado jogo, ela não seja uma poderosa ponte para alguns interlocutores do quarto poder do país.

De qualquer maneira, existindo ou não uma espécie de cunhaleaks, o que se tem de concreto é que a máxima de que o crime não compensa parece estar sendo elevada em nível exponencial, nesse caso. A arrogância, a perseguição e a vingança que presidiu as ações de Eduardo Cunha contra a presidente Dilma e o PT, apesar de terem colocado o partido e seus líderes em situações muito difíceis, não está sendo impune mesmo que por vias transversas. Pelo andar da carruagem, a punição pelos mal feitos do deputado cassado deverão chegar a sua mulher, seus filhos, cachorros e papagaios.

Apesar desse cenário, é preciso registrar com a devida ênfase o extremo desconforto de ser testemunha de uma verdadeira derrocada de um projeto político de base popular e democrática, por erros internos de condução política, mas, sobretudo pela ação de alguém com as características pessoais e políticas de Eduardo Cunha.

Esse caso é mais pura demonstração da deformação do sistema político brasileiro e, a partir dele, faz necessário e urgente refletir sobre o ambiente e as causas que possibilitam a existência, sucesso político e a sobrevivência institucional de figuras como Cunha que foi cria do antigo PRN, juntamente com Collor, mas que verminou as entranhas da república durante os governos de Itamar Franco, dos oito anos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, e dos quase seis anos de Dilma. Nesse último caso, inclusive, fortaleceu-se o suficiente para derrotar a presidente na disputa pela condução da câmara federal o que, ao fim e ao cabo, se constituiu na principal condição para o seu impeachment.

O pior de toda essa história é que Eduardo Cunha não é um ponto fora da curva em termos de comportamento dos políticos brasileiros. Ao contrário, ele é o caso que explica e expõe a verdadeira face de muitos daqueles que a pretexto da política e das disputas eleitorais tem corrompido e deixado corromper todo o sistema institucional de intermediação entre sociedade e estado da nossa ainda jovem democracia.

Diante de todo esse imenso imbróglio que envolve atualmente o país, talvez a solução que nos reste seja aquela dos versos de Ivan Lins:

Já está escrito, já está previsto,

Por todas as videntes, pelas cartomantes

Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas

No jogo dos búzios e nas profecias

Cai o rei de Espadas

Cai o rei de Ouros

Cai o rei de Paus

Cai não fica nada!

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