17 de abril de 2018, 17:19

COLUNISTASBaloubet du Rouet ou Pônei Maldito?

Elias de Oliveira Sampaio

Coluna: Políticas Públicas

Elias de Oliveira Sampaio é autor do livro Política, Economia e Questões Raciais - A conjuntura e os pontos fora da curva, 2014-2016, ex-secretário estadual de Promoção da Igualdade Ravial, economista do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, doutor em Administração Pública e mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, professor colaborador do Programa de Gestão das Organizações (PGO) da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. Foi diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia - PRODEB (2008 – 2011), vice-presidente de Tecnologia da Associação Brasileira de Entidades de TIC (ABEP) 2010 – 2011, além de professor universitário nas áreas de Teoria Econômica, Desenvolvimento Regional, Administração Pública e Políticas Públicas. Elias Sampaio escreve uma coluna semanal neste Política Livre às quartas-feiras.

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O prefeito ACM Neto renunciou condição de candidato a governador da Bahia na disputa das eleições de 2018. Esse foi o fato político mais importante para a disputa local às vésperas de encerramento do período das desincompatibilizações e, segundo os seus próprios aliados, “foi um terremoto” que só após um certo tempo se saberá quem terá perdido um olho, um braço, uma perna ou até mesmo morrido em virtude de tamanha catástrofe.

Ao deixar para “fugir da raia” na vigésima quinta hora, depois de ter construído toda uma narrativa pública de que estaria disposto a fazer o enfrentamento ao grupo da situação encabeçado pelo PT, o prefeito, maior aposta para turma que vem fazendo oposição ao atual governo estadual, causou um nível de decepção nas suas hostes sem precedentes, talvez só comparado àquele que o cavaleiro Rodrigo Pessoa e a sua entourage amante do hipismo nacional –  exporte dos privilegiados do sul maravilha – experimentou com o triplo refugo feito pelo “Cavalo de Ouro do Brasil”, Baloubet du Rouet, nas olimpíadas de Sydney no ano de 2000, há dezoito anos.

Confesso que essa foi a primeira imagem que no veio à mente quando os blogs políticos e demais veículos de comunicação passaram a corrigir suas manchetes do “furo” jornalístico sobre a formação da pretensa chapa oposicionista: ACM Neto (governador), João Gualberto (vice), José Ronaldo e Juthay Magalhães Júnior (senadores). Faltou apenas a narração melancólica de Galvão Bueno, cuja pronuncia em francês do nome do alazão nunca mais saiu da minha cabeça. O fato é que, tal como a elite branca brasileira davam por barato a medalha de ouro de um esporte que era “a sua cara” naquela competição, a trupe que circunda o Palácio Thomé de Souza aguardava ansiosamente para ter, na eleição de 2018, alguém que viesse a lembrar os tempos de glória da política reacionaria e conservadora de ACM, o avô, fragorosamente derrotado nas urnas por Jaques Wagner em 2006.

Ilustrações à parte, a questão fundamental é que o comportamento do prefeito selou definitivamente a percepção do povo baiano quanto a diferença qualitativa que existe entre o modelo de liderança exercido por essa banda da política local e a outra formada pelos partidos que se alinham a uma proposta progressista de gestão do aparelho de estado, mas também, do exercício do relacionamento  entre lideres, liderados e o povo em geral, a partir de uma outra perspectiva ideológica. Não custa lembrar, por oportuno, que o núcleo duro que tem sustentado o governo e a candidatura de Rui Costa foi cuidadosamente construído pela competente ação política de Jaques Wagner a partir de 2010, quando estabeleceu os termos mais robustos de relacionamento de confiança e colaboração de mão dupla entre os partidos de esquerda, particularmente, com a sua histórica aliança com o PC do B e o PSB da senadora Lídice da Mata, mas também, com a emblemática participação de Otto Alencar desde sua saída do TCM.

Por isso, a despeito da desistência, por quaisquer motivos que tenha sido, a partir de uma decisão pessoal do prefeito, a forma que ela foi realizada perante os seus próprios companheiros e seus eleitores carece, sim, de análises no âmbito da política e dos comportamentos daqueles que vivem dessa atividade social que, por natureza, é de interesse público. Nesse sentido, não há possibilidade de qualquer interpretação sobre esse fato que possa suavizar o desastroso, brusco e desrespeitoso  movimento do prefeito ACM Neto. Não importa se foi por puro e simples medo de encarar o dia seguinte de uma derrota acachapante, na cidade e no estado, perante o governador Rui Costa e seu grupo, ou se foi em virtude de um cálculo estratégico deformado onde a única variável realmente relevante para a sua tomada de decisão teria sido a sua própria imagem refletida no espelho ou no reflexo d´água, como todo e bom arquétipo de narciso.

A bem da verdade, inclusive, registre-se que a atitude tomada pelo ex-futuro-candidato a governador do estado pelo DEM, o colocou numa espécie de isolamento, enquanto liderança ainda em gestação, mesmo se comparado com a forma de atuação de sua linhagem política mais genuína. De onde observamos, por exemplo, não se conhece por parte de seu avô e até mesmo do tio Luís Eduardo morto há 20 anos, uma ação política que ao mesmo tempo facilitasse, e muito, a vida de seus adversários, e ainda, retirasse de seus aliados os principais instrumentos de disputa eleitoral, quais sejam, a confiança no discurso de unidade de projeto e a expectativa de poder que permeia todo o processo de angariação de votos.

Com todo um desenho de movimento kamikaze, ao não descer para o “play”, ou decidir terminar com o “baba” levando consigo a sua bola debaixo do braço, como é comum a todo garoto de playground dos bairros nobres de Salvador, ele também pode ter gerado um sentimento nocivo às suas pretensões futuras que só deverão se tornar mais explícitos após o resultado das eleições. Não há como deixar de prever, por suposto, que os caciques do PMDB, PSDB, PRB e demais partidos de sua base que foram estressados para criar as melhores condições objetivas para sua candidatura, deixarão de entregar uma fatura muito alta no caso em que se concretize as (ainda) silenciosas previsões que já estão sendo feitas nos gabinetes quanto a formação da bancada estadual e, principalmente, a importantíssima bancada federal para efeito de distribuição dos suculentos fundos partidário e eleitoral, objeto de profundos desejos dos partidos políticos deste ano em diante.

Por isso, e considerando o efeito terremoto do episódio, o que se observa, no entanto, é um processo de reorganização das bases da oposição – apesar de ACM Neto – posto que, dada a complexidade da disputa e da total indefinição dos arranjos nacionais para “guerra” vindoura, a impressão que fica é que o prefeito enquanto cabo eleitoral dos interesses mais gerais do DEM, se meteu em uma verdadeira cama de gato após a sua desistência. De fato, admitindo que o seu candidato a presidente Rodrigo Maia ficará a cada dia mais inexpressivo diante dos outros candidatos à presidência da república e, ainda, que o seu aliado de primeira hora Michel Temer (leia-se Lúcio e Geddel) continuará sendo um invertebrado gasoso em termos de popularidade e intenção de votos, toda esta situação está na verdade lhe impondo a figurar como apenas um “cisco” na parte mais relevante do processo eleitoral.

No que se refere mais diretamente a disputa pelo governo da Bahia, a movimentação errática do prefeito também serviu para lançar luzes sobre algumas questões políticas de suma importância. A principal delas é que a tão propalada hegemonia do PT enquanto força política no estado carece de uma revisão conceitual. Longe de representar aquele dispositivo gramsciano para explicar a manutenção histórica do poder pelas classes opressoras sobre classes oprimidas, alguns dos partidos da base do governo se revelaram, de maneira bastante explicita, serem movidos pela lógica pura e simples do adesismo aos cargos e as benesses de governo e estão muito distante de acreditar verdadeiramente no projeto político encabeçado pelo PT como instrumento de transformação social.

O leilão que foi estabelecido tendo como moeda de troca a garantia de eleição de determinados deputados federais dirigentes regionais de legenda e/ou a dubiedade do apoio do centrão nacional regionalmente localizado, são eventos que devem ser tratados como o que verdadeiramente são: alianças oportunísticas da pior espécie possível. De resto, não fosse a seriedade do processo da Grande Política, está sendo muito engraçado imaginar o efeito daquela musiquinha do comercial da pick-up da Nissan de alguns anos atrás, nas cabeças dos netistas: “pônei maldito, pônei maldito, lá, rá, lá, lá, lá…”

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