3 de novembro de 2016, 18:00

COLUNISTAS2018: o ano que já começou

Elias de Oliveira Sampaio

Coluna: Políticas Públicas

Elias de Oliveira Sampaio é ex-secretário estadual de Promoção da Igualdade, economista do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, doutor em Administração Pública e mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, professor colaborador do Programa de Gestão das Organizações (PGO) e do Programa de Mestrado em Políticas Públicas, Gestão do Conhecimento e Desenvolvimento Regional (PGDR) da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. É também colaborador do Núcleo de Pós-Graduação em Administração da Ufba, foi diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia - PRODEB (2008 – 2011), vice-presidente de Tecnologia da Associação Brasileira de Entidades de TIC (ABEP) 2010 – 2011, além de professor universitário nas áreas de Teoria Econômica, Desenvolvimento Regional, Administração Pública e Políticas Públicas. Elias Sampaio escreve uma coluna semanal neste Política Livre às quartas-feiras.

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Os resultados das eleições municipais deste ano representam um poderoso golpe político sobre a esquerda no país e no estado, especialmente sobre o PT, partido que liderou o governo federal e lidera o governo da Bahia há mais de uma década. Os números que saíram das urnas revelam a concretude das mais diversas teorias que tratavam sobre o esgotamento do ciclo de poder petista iniciado com o imenso desgaste da sigla e de suas principais lideranças vem sofrendo desde de 2005, aprofundando-se em 2013 com as manifestações de rua e, finalmente, a interrupção de seu governo com o impeachment Dilma Roussef.

Para cada tese contra o PT e seu período de governo há, ao menos, dez argumentos contrários elaborados pelos seus partidários, militantes e simpatizantes justificando cada ponto negativo, com antíteses que foram necessárias ao enfrentamento político até aqui, mas, a mensagem das urnas não deixa mais margens para isso e muito menos para quaisquer teorias conspiratórias. Para superar tal situação não há alternativa do que a assunção da enorme crise e a sua estruturação enquanto o problema a ser urgentemente solucionado.

O momento é de reunir as forças partidárias e sociais aliadas que ainda restem para lutar e tentar se reconstruir simbólica e institucionalmente para que se possa preservar, em um nível razoável, todo o importante legado da mais longeva experiência de poder de base popular e democrática que existiu no Brasil. Os votos dados aos partidos que foram os algozes de Dilma e seu governo, e o “silêncio obsequioso” representado pelo não-voto nessas eleições indicam que a discussão se a retirada prematura dos petistas e seus aliados do poder foi ou não foi golpe, passa agora a ser uma tarefa de historiadores e cientistas políticos porque enquanto discurso de defesa, perdeu totalmente o sentido ou, no melhor das hipóteses, possui o mesmo peso da quantidade de votos que foram recebidos por aqueles que o utilizaram como contraponto durante a campanha.

Os resultados eleitorais são inquestionáveis do ponto de vista qualitativo e quantitativo. A concomitante e drástica redução no número de prefeituras e eleitores governados pelo PT e seus aliados entre as eleições de 2012 e 2016, não é apenas relevante, é emblemática. A derrota no ABC paulista, berço político do partido e de Lula; e aqui na Bahia, estado de maior longevidade de um governo do PT, o fim dos vinte anos da exitosa gestão em Vitoria da Conquista, são registros históricos que conformam uma curva de acontecimentos que impedem, até os mais apaixonados militantes, de não perceber o imperativo da reestruturação partidária e das gestões dos governos petistas remanescentes sob pena de o projeto que eles representam ser extinto da agenda política do país já em 2018. Perderá a esquerda, o PT e, sobretudo, a nossa jovem democracia.

A Bahia, portanto, passa a ser a bola da vez. Derrotar a esquerda e o PT no estado passou a ter importância fundamental para concluir e dar sustentabilidade a onda conservadora e reacionária que vem se desenvolvendo fortemente no país. O detalhe a ser observado é que o campo político liderado pelo PSDB e DEM, apesar de terem perdido o governo federal em 2002, nunca perdeu São Paulo e de Minas Gerais (até 2014), duas das maiores economias e colégios eleitorais do país. Foram dessas trincheiras que se estabeleceu o conjunto de relações ambíguas e ambivalentes, entre inúmeros ex aliados petistas, que vieram a construir e consolidar o caldo de cultura que desembocaram na atual conjuntura extremamente desfavorável para a esquerda brasileira e, em particular, para o Partido dos Trabalhadores.

Nesse contexto, é muito importante observar que para os detentores da caneta nos últimos treze anos, a noção politicamente equivocada de governabilidade foi paulatinamente substituindo o pretenso sentido de hegemonia e, a partir dessa deformação, não poderia restar outro resultado senão a subjugação de um projeto político de base democrática e popular, aos interesses de uma base aliada que não resguardava os mesmos objetivos estratégicos dos detentores do poder de momento.

Por isso, a despeito de ser extremamente grave, a acentuada queda no número de prefeituras e população governada pela esquerda e pelo PT entre os anos de 2012 e 2016 é apenas a “ponta do iceberg” de um problema de maior importância do ponto de vista estrutural, qual seja, o processo de desgaste e inversão de prioridades em termos de estratégia e princípios políticos representado pelo declínio da representatividade parlamentar da centro-esquerda na câmara federal a partir de 2002. Coincidentemente, no ano em que o PT chega e se mantêm por mais de uma década no comandando o executivo federal, após o acentuado e sustentável crescimento nas décadas anteriores.

Com efeito, tomando os representantes parlamentares do partido como proxy desse movimento, não podemos deixar de notar que, contraditoriamente com o sucesso da “governabilidade” dos governos Lula e do primeiro governo Dilma, o número de deputados federais do partido cai de 91, cerca de 18% daquele colegiado em 2002, para 14% em 2014, chegando agora em 2016 a 11%. Infelizmente, esse fato aparentemente tênue no nível federal pôde e pode ser verificado, também nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais, especialmente, nos maiores estados e cidades brasileiras.

A não eleição de nenhum vereador do PC do B nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro neste ano de 2016 e a redução de mais de 50% dos representantes do PT em relação a 2012 na câmara de Salvador, capital de um estado governado pelo PT há dez anos, são indícios mais do que reveladores de componentes estruturais da crise e do declínio da representação política institucional do PT. Para esquerda e os partidos mais progressistas do país, a lição aprendida desse primeiro grande teste eleitoral após o impeachment, só pode ser o imperativo de mudança em termos estratégicos, conceituais e operacionais no se refere a compreensão mais profunda daquilo do que se entende e se executa em nome política, afinal o ano de 2018 já começou.

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