7 de setembro de 2019, 13:56

MUNDODesigualdade e herança do apartheid geram onda xenófoba na África do Sul

Em poucos minutos, um grupo de pessoas armado com bastões de madeira e ferro arromba a porta de uma loja, invade o local e saqueia toda a mercadoria. Os ataques, que a princípio pareciam crimes comuns, desembocaram em uma série de mortes, prisões em massa e incêndios com fundo político. Uma onda de violência xenófoba perpetrada por sul-africanos contra imigrantes africanos na última semana deixou ao menos dez mortos. Os primeiros episódios começaram no fim de agosto, nos subúrbios de Pretória, capital administrativa do país, e se estenderam para Joanesburgo, capital comercial. Centenas saquearam e queimaram lojas que seriam de propriedade de estrangeiros.

Cyril Ramaphosa, presidente do país, afirmou em um pronunciamento na TV nesta sexta (6) que oito dos mortos eram sul-africanos. “Não há desculpas para os ataques a lares e negócios de estrangeiros nem para a xenofobia.”
Mais cedo, a ministra das Relações Exteriores, Naledi Pandor, reconheceu que as agressões, muitas delas cometidas por negros, foram motivadas por “afrofobia” contra imigrantes africanos que moram e trabalham no país. Até então, as autoridades tratavam o ocorrido como onda de crimes sem motivações políticas.A série de episódios violentos levou à prisão de 423 pessoas, segundo Elias Mawela, comissário da polícia de Gauteng, província onde se localizam as duas cidades.

Para Ivan Katsere, professor e pesquisador de linguagem política da Universidade da Cidade do Cabo, a herança do apartheid explica em parte os ataques. “Durante o regime, os negros internalizaram o racismo direcionado a eles, e agora fazem o mesmo com outros negros”, disse. “Se eu sou negro e falo inglês fluentemente, sou criticado e chamado de ‘coco’: negro por fora, mas branco por dentro.”

Loren Landau, professor da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, argumenta que a violência durante a resistência ao apartheid normalizou esse tipo de ações ocorridas nos últimos dias. “Nos anos 1980, as pessoas que se mobilizavam politicamente usavam a violência porque elas não tinham o direito de participar do processo político de nenhum outro jeito”, diz. “A violência é uma forma de tomar o controle do que acontece, e uma pessoa não faz isso por meio do voto, mas contra-atacando.” Ambos os acadêmicos argumentam que o principal legado do regime que contribui para o fenômeno atual é o fato de que os negros continuam a ser a maioria da parcela mais pobre da população. “Os negros ainda vivem nas áreas [periféricas] que foram demarcadas para eles, assim como os brancos”, afirma Katsere, para quem essa desigualdade explica por que os tumultos ocorreram nos subúrbios de grandes centros urbanos.

O índice de desemprego na África do Sul chegou a 27,6% em maio deste ano. Dados oficiais de julho registram que 46% dos sul-africanos negros estão desempregados, contra apenas 9,8% dos brancos. A falta de empregos na comunidade negra serviu de combustível para o discurso de que estrangeiros estariam roubando vagas dos nativos. O pesquisador afirma que dois eventos deste ano atuaram como gatilho para uma frustração que vinha crescendo entre a comunidade negra.

No início do ano, a polícia realizou uma série de apreensões de produtos falsos em pequenos comércios, a maioria pertencente a imigrantes. No segundo episódio, no fim de agosto, um motorista de táxi foi morto em um confronto com traficantes de drogas em Pretória. Nas redes sociais, circularam boatos de que o autor do crime seria nigeriano.
“Há muito preconceito e estereótipos no discurso que os políticos e a mídia usam para se referir a imigrantes. Tem acontecido um movimento de bode expiatório”, diz Katsere.

Durante a campanha para as eleições de maio deste ano, o então candidato e atual prefeito de Joanesburgo, Herman Mashaba, adotou discurso forte contra imigrantes irregulares, argumentando que eles sobrecarregavam serviços públicos de saúde e habitação. Ramaphosa defendeu a necessidade de impedir a entrada de novos estrangeiros como forma de assegurar empregos para os locais.

As redes sociais também influenciam na onda de violência e são usadas para marcar local e horário dos ataques e disseminar notícias falsas. Uma das mensagens compartilhadas nos últimos dias traz um vídeo de crianças correndo em pânico de uma escola em chamas em Katlehong, município a 35 quilômetros de Joanesburgo, e afirma que os autores do incêndio seriam imigrantes somalis. O secretário de Educação de Gauteng desmentiu o relato.A onda de violência gerou forte reação internacional.

Na Nigéria, redes sul-africanas foram alvo de violência e saques. As representações diplomáticas da África do Sul na capital, Abuja, e em Lagos foram fechadas após o corpo diplomático receber ameaças. O país, junto a Maláui, Ruanda e República Democrática do Congo, decidiu boicotar o Fórum Mundial Econômico que teve início na quarta-feira (4), na Cidade do Cabo.

A seleção da Zâmbia adiou um amistoso contra a equipe nacional sul-africana que ocorreria neste sábado (7), alegando prioridade a uma partida contra a Namíbia, programada para segunda (9).
Ramaphosa esperava usar o fórum como uma vitrine para seus esforços de melhorar a economia sul-africana e promover o país, mas o evento, esvaziado pelos cancelamentos, acabou se tornando uma saia justa para o seu governo.

Folhapress

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