10 de outubro de 2018, 17:45

EXCLUSIVAPouco “ouvido” em propaganda, Ronaldo vetou ataque a Rui e à primeira-dama

Foto: Divulgação/Arquivo

Na reta final da campanha, Ronaldo assumiu apoio a candidatura de Jair Bolsonaro, como mostram os números em sua camisa

A decisão do ex-candidato do DEM ao governo, José Ronaldo, de pedir votos para o presidenciável Jair Bolsonaro na reta final da campanha, responsável por um quase rompimento dele com o prefeito ACM Neto (DEM), coordenador nacional da candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência da República, foi um risco calculado e representou um ato de rebeldia do ex-prefeito de Feira de Santana em relação à sua equipe de comunicação.

Quem relata ao Política Livre é um assessor de campanha de Ronaldo sob o compromisso do mais absoluto anonimato. Segundo ele, o candidato, desde o princípio, discordou da linha de propaganda traçada para ele, mas as divergências se tornaram internamente evidentes no momento em que chegou o material de campanha de Geraldo Alckmin (PSDB), cujo objetivo era fazer com que ele e seus aliados distribuíssem.

Como já vinha percebendo a resistência ao tucano nos ambientes em que circulava, Ronaldo não concordou com a estratégia por medo de que dificultasse ainda mais seu crescimento na preferência do eleitorado. Na verdade, conta a mesma fonte, o candidato do DEM gostaria de ter feito uma dobradinha com o presidenciável PDT, Ciro Gomes, com quem o Centrão, com o DEM à frente, chegou a tentar uma aproximação que acabou se inviabilizando.

Neste momento, sentindo a dificuldade de decolagem de Alckmin, Ronaldo passou a apostar na candidatura de Bolsonaro. Aproveitando as relações pessoais e políticas com a deputada federal eleita Dayane Pimentel, presidente estadual do PSL, que é de Feira de Santana, cidade que governou quatro vezes, o candidato do DEM já tinha empenhado amigos para ajudar na preparação de um evento em Salvador para o capitão reformado.

Foi a única visita feita à Bahia pelo presidenciável, obrigado a se recolher depois de sofrer um atentado em Juiz de Fora, numa atividade de campanha. Firmada a aproximação, o passo seguinte era montar uma estratégia que permitisse, no caso de Alckmin naufragar, como acabou ocorrendo, uma “transição natural” de Ronaldo para a campanha do capitão reformado, com a qual, conta a mesma fonte, a equipe não quis colaborar.

Para isso, era necessário ter empreendido um discurso que posicionasse Ronaldo como um candidato anti-petista e buscasse situar o governador Rui Costa (PT) não apenas no campo de adversário político, mas de representante do “inimigo maior”, o petismo, nos mesmo moldes do que vinha fazendo o capitão reformado nacionalmente. No entanto, Ronaldo permaneceu sem ser escutado. Foi aí que o núcleo duro da campanha teve uma idéia.

Para testar se o candidato sofria um boicote na própria campanha, uma figura muito ligada a ele vazou para a imprensa uma nota antecipando que, em seu horário eleitoral, seriam feitas críticas ao apoio do PT à Venezuela, tema recorrente na comunicação de Bolsonaro. A histeria desencadeada para descobrir a fonte da notícia provou, na visão da mesma fonte, que a indiferença aos interesses de Ronaldo no seio da campanha era deliberada.

Em contrapartida, queriam que o candidato permanecesse atacando a administração estadual e, num dado momento, o governador e sua mulher, a primeira-dama do Estado, Aline, pessoalmente. Para tanto, chegaram à mesa da produtora em que Ronaldo gravava “documentos” supostamente comprovando o que se pretendia denunciar. O candidato do DEM foi então firme e desautorizou qualquer propaganda pessoal contra o concorrente.

O auxiliar de Ronaldo conta que ainda tentaram convencer o candidato da “importância” do ataque, alegando que a iniciativa poderia desestabilizar a campanha de Rui, mas, usando todo o seu mau humor, à esta altura no limite, o democrata deu um pito na equipe. Ele foi duro ao dizer que não bancava a estratégia, alegando que a investida não traria nenhum tipo de contribuição ao que mais precisava naquele momento: votos.

A resistência à estratégia desejada por Ronaldo é apontada como culpada pelo fato de o candidato não ter ido ao segundo turno, como aconteceu com pelo menos dois postulantes de outros estados que conseguiram fazer a tempo a vinculação com Bolsonaro. A aproximação, no entanto, rendeu ao ex-prefeito de Feira a tarefa de, nesta segunda fase do processo eleitoral, coordenar a campanha do capitão reformado na Bahia junto com Dayane Pimentel.

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