14 de setembro de 2018, 09:15

BRASILComo a democracia pode se proteger contra autoritários, por Steven Levitsky*

Foto: Divulgação/Arquivo

Steven Levitsky é cientista político e autor do livro "Como as Democracias Morrem"

Jair Bolsonaro representa uma séria ameaça à democracia. Caso eleito, ele poderia prejudicar as instituições democráticas do Brasil, da mesma forma que Hugo Chávez fez na Venezuela. Como a democracia pode se proteger contra candidatos autoritários? Os partidos políticos e os políticos desempenham papel vital para isso. Eles são os guardiões da democracia.

O autoritarismo eleito raramente chega ao poder sozinho. Quase sempre, recebe ajuda da elite. Políticos moderados abrem as portas para ele. Esses políticos em muitos casos cometem um erro de cálculo trágico. Acreditam que uma aliança com o extremista será politicamente útil —que pode ajudá-los a conquistar ou reter o poder, ou talvez a derrotar um adversário ideológico odiado. E eles presumem que serão capazes de controlar o extremista, quando ele for eleito.

Essa barganha muitas vezes dá errado. Na Itália, em 1921, o primeiro-ministro Giovanni Gioletti, liberal, quis aproveitar o apelo popular de Mussolini para derrotar a esquerda, e incluiu os fascistas de Mussolini em sua coalizão para as eleições legislativas. A aliança legitimou Mussolini, que em breve subiu ao poder, enquanto os liberais de Gioletti desapareciam.

Na Alemanha, os líderes do Partido Conservador cooperaram com Hitler no final da década de 1920, buscando usar a força de Hitler junto às massas para reforçar sua base erodida. Em 1933, quando o líder conservador Franz von Papen tentou acalmar seus aliados quanto à indicação de Hitler como chanceler [primeiro-ministro], ele lhes disse: “Não se preocupem. Em dois meses, nós o teremos empurrado com tanta força para o canto que ele vai até apitar”.

Na Venezuela, o ex-presidente Rafael Caldera expressou publicamente sua simpatia à tentativa de golpe de Estado de Hugo Chávez em 1992. Isso ajudou Caldera a reconquistar a Presidência e, em 1994, ele libertou Chávez da prisão. Caldera sabia que Chávez era um demagogo perigoso, mas acreditava que a influência dele desapareceria muito antes da eleição de 1998.

Em todos os três casos, políticos convencionais abandonaram seu papel de guardiões. Movidos por uma combinação de medo, ignorância e ambições imediatistas, eles abriram as portas aos extremistas. Nos três casos, isso provou ser um erro de cálculo trágico.

O cientista político espanhol Juan Linz dedicou sua carreira a estudar de que maneira as democracias morrem. Uma das grandes lições que ele aprendeu foi que a de que os políticos convencionais precisam se opor aos extremistas antidemocráticos em todas as circunstâncias.

Eles não só precisam resistir à tentação de se alinhar aos extremistas, mas devem também se dispor a unir forças com rivais ideológicos a fim de garantir a derrota do extremista. Nas palavras de Linz, diante de uma ameaça autoritária, os democratas devem “se unir a oponentes, mesmo que distantes ideologicamente, mas que tenham compromisso com a sobrevivência da ordem política democrática”.

Os liberais italianos, os conservadores alemães e Rafael Caldera não o fizeram —e a ordem política democrática entrou em colapso.

Até agora, os políticos brasileiros têm seguido o conselho de Linz. Com a vergonhosa exceção de Paulo Guedes, poucas figuras da elite se alinharam a Bolsonaro. Mas esse é só o primeiro turno. É o segundo turno, em que Bolsonaro enfrentará Ciro ou Haddad, que me preocupa.

Será então que os brasileiros terão de enfrentar escolhas difíceis, que podem salvar ou matar a democracia. O conselho de Linz nessa situação é claro: os políticos convencionais devem unir forças aos seus adversários ideológicos —mesmo que os desprezem— a fim de defender a democracia. Isso significa que, se Alckmin perder, os políticos de inclinação direitista devem se dispor a apoiar um candidato de esquerda contra Bolsonaro (mesmo que Bolsonaro e Guedes prometam políticas econômicas liberais).

Alguns leitores responderão que o PT é “tão ruim quanto” Bolsonaro. Estão errados. Bolsonaro é abertamente autoritário. Ele é o Chávez brasileiro. Os governos recentes do PT podem ser acusados legitimamente tanto de corrupção quanto de gastos públicos irresponsáveis. Mas nenhum observador razoável pode negar que o PT governou democraticamente.

Os tucanos e os petistas têm bons motivos para não gostarem uns dos outros e não confiarem uns nos outros. Mas é preciso ser claro: o PSDB não é golpista. E o PT não é chavista. O PSDB e o PT são pilares da democracia brasileira. Devem se dispor a unir forças para defendê-la, se necessário. Precisam concordar, agora, em se unir contra Bolsonaro nas urnas. Caso não o façam, poderiam seguir o caminho dos liberais italianos e dos conservadores alemães —e perder sua democracia.

* Steven Levitsky é cientista político e autor do livro “Como as Democracias Morrem”. Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo.

Steven Levitsky*

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