29 de janeiro de 2018, 08:26

EXCLUSIVALula inelegível e Wagner no fogo, por Raul Monteiro

Foto: Divulgação/Arquivo

Ex-governador Jaques Wagner

Nada como o mundo real para mostrar ao PT, com todas as letras, que seu projeto de insistir na candidatura de um condenado em segunda instância, portanto, um político inelegível segundo a Lei da Ficha Limpa, é incompatível com um objetivo eleitoral verdadeiro. O anúncio de partidos como o PDT, o PCdoB e o PSOL de que manterão suas candidaturas presidenciais, mesmo dando apoio ao ex-presidente Lula contra o que consideram uma perseguição judicial, é a maior prova de que o resultado do julgamento do TRF 4 sepultou de uma vez por todas qualquer plano de sustentação da candidatura do petista para além da estratégia meramente petista de preservar espaço.

Não há o que questionar com relação aos benefícios que, sob o guarda-chuva do petismo, seus aliados de campo político e do famoso Centrão lograram na última década. Mas agora, ante a cassação judicial da candidatura de Lula, que pode, inclusive, no limite, ser preso, não há mais correligionário que queira associar-se a um projeto exclusivamente petista. É muito melhor sair com candidatos próprios de forma a assegurar a eleição de bancadas, condição fundamental para continuar usufruindo do generoso fundo essencial à manutenção da máquina partidária e de respectiva influência no Congresso.

Sob o isolamento que a confirmação da inelegibilidade de Lula vai lhe impondo, o PT não tem alternativa senão passar a pensar efetivamente num Plano B, para o qual aparecem, em princípio, pelo menos dois nomes: o do ex-governador Jaques Wagner e o do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, com a diferença de que o primeiro, reconhecidamente um político experiente e muito competente, saiu-se muito melhor na fita, na Bahia, conseguindo fazer, inclusive, o sucessor, em 2014, do que o segundo, que sequer conseguiu se reeleger, levando o PT a uma derrota fragorosa para o tucano João Dória nas últimas eleições municipais.

Embora seja um homem de partido, como se diz no PT, para cuja fundação e consolidação de agremiação no poder colaborou imensamente, Wagner terá que lidar com grandes desafios se lançar-se na aventura de representar o partido na sucessão presidencial. O primeiro deles é o risco de, em sendo derrotado, ter que lidar com a dura realidade de perder o foro privilegiado, razão maior pela qual decidiu abrigar-se no cargo de secretário estadual de Desenvolvimento Econômico do governador Rui Costa (PT), no ano passado. Os demais, igualmente difíceis, dizem respeito à devassa que sua vida pessoal e pública deverá sofrer.

Como acontece com qualquer candidato à Presidência, condição que se intensifica no caso de representante de um partido para o qual todos os holofotes judiciais e políticos permanecem virados, a mídia sulista, mais acostumada que todas as demais a investigar personagens políticos, deve voltar suas atenções para o petista, assim que sua candidatura for confirmada ou até mesmo antes disso. O resultado será um grande nível de exposição que funcionará, por outro lado, influindo no andamento de ações judicias ou investigações porventura existentes contra o petista. Se Wagner deseja enfrentar a candidatura, sabe a que preço o fará em benefício exclusivo do PT.

* Artigo do editor Raul Monteiro publicado originalmente na Tribuna.

Raul Monteiro*

Comentários