7 de dezembro de 2017, 07:25

EXCLUSIVAMais um motivo para vaias, por Raul Monteiro

Foto: Dida Sampaio/AE

A decisão de partidos da base do governo Michel Temer (PMDB) de fecharem questão pela aprovação da refoma da Previdência abre um suposto guarda-chuva de proteção para parlamentares desejosos de votar a favor da proposta, mas temerosos de se “queimar” com a opinão pública, como se a grande maioria já não tivesse sido colocada, justificadamente, pela sociedade, em linha mais baixa do que o chão nestes tempos de crise de representatividade aparentemente irreversível. Se espraiar-se entre as demais legendas, alguns deputados baianos que preferem, nestes temas, a penumbra, acham que podem se beneficiar.

A medida foi pensada pelo presidente, junto com sua articulação política, exatamente para isso: diminuir o grau de contrangimento dos parlamentares frente a um eleitorado cansado de investidas constantes da parte dos governantes que lhe tiram mais do que lhe acrescentam direitos na mesma medida em que continuam a criar privilégios para usofruto próprio escancaradamente. A bem da verdade, a reforma da Previdência é não só boa, como necessária num país que vê sua dívida pública bater quase na proporção total do PIB, com contribuição significativa de inúmeros privilégios e aposentadorias milionárias.

Mas depois de tantas idas e vindas e de concessões promovidas por um governo carente de força e legitimidade, já não se sabe se contribuirá mesmo para diminuir o impacto da Previdência no déficit, medida essencial para ajudar a tirar o país da crise, facilitando o retorno dos investimentos e afastando o fantasma da inflação. Da colcha de retalhos em que o plenário pode transformar o texto, além das mexidas que a proposta já sofreu neste período em que vem sendo debatida e alterada pelos mais fortes grupos de pressão do alto funcionalismo, pode ser que se sepulte o princípio do universalismo que deveria nortear as mudanças.

Com isso, o mais importante, a criação de um mesmo teto de aposentadoria para trabalhadores dos setores público e privado, pode já ter voado pelos ares, como já ocorreu com tantas outras propostas que pretendiam criar condições para diminuir a imensa desigualdade que sabota há anos o país. Mas voltando ao caso dos parlamentares que podem apresentar ao eleitorado a justificativa de que não tinham alternativa senão votar a favor depois do fechamento de questão pela aprovação da reforma da parte de seus partidos, devem estar entre eles principalmente integrantes de legendas como o PP, o PR e do PSD, o chamado Centrão que tem tirado o sono do presidente no Congresso.

Como se sabe, eles estão com o governador Rui Costa (PT) aqui e com Michel Temer, lá, beneficiando-se, quando podem, e em nome do que dizem ser seus eleitores, de pelo menos duas bocas – a do governo estadual e a do federal. O problema é que, como a sociedade comeu a história contada pela oposição e os sindicatos – exatamente, os sindicatos que deveriam defender o trabalhador -, de que a reforma é ruim e de que a Previdência pode ficar no positivo desde que bem gerida, eles sabem que vão dar novo motivo para serem vaiados nos palanques que dividirem com o governador. E vão mesmo.

* Artigo publicado originalmente no jornal Tribuna da Bahia

Raul Monteiro*

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