9 de novembro de 2017, 09:24

EXCLUSIVARui e um deputado contra a invasão em Correntina, por Raul Monteiro

Foto: Divulgação/Arquivo

Deputado estadual Eduardo Salles

Os posicionamentos políticos provocados pela invasão de uma fazenda produtiva no município de Correntina no último dia 2 de novembro na base do governador Rui Costa (PT) sugerem que há uma dissonância clara entre o que pensa o chefe do executivo estadual e os parlamentares que o apóiam, especialmente aqueles de partidos como o PT e o PCdoB. Enquanto o governador realizou um pronunciamento condenando o ataque a um dos parques baianos de uma das maiores produtoras de alimentos do país, a japonesa Igarashi, petistas como Valmir Assunção, egresso do Movimento dos Trabalhadores do Sem Terra, justificaram o crime como um “protesto” político.

Mais cauteloso, o deputado federal Daniel Almeida, dos quadros mais iluminados do PCdoB local, fez discurso na Câmara dos Deputados criticando a invasão, mas ao mesmo tempo insinuando que poderia ser verdade o boato que a teria provocado, a de que o sistema de irrigação da fazenda seria o responsável pela diminuição do nível dos rios locais, afetados por uma seca sem precedentes para a qual – é evidente – o governo, principalmente o anterior, não se preparou. Antes mesmo que Rui Costa se pronunciasse, o único toque de racionalidade ao enfrentamento do problema na base havia sido dado pelo deputado estadual Eduardo Salles (PP), um governista.

Ao tomar conhecimento da ocorrência policial, Salles redigiu do próprio punho uma mensagem que distribuiu por WhatsApp condenando de forma veemente a invasão e cobrando providências policiais e judiciais contra seus mentores e executores, responsáveis por prejuízos que podem chegar à casa dos R$ 60 milhões. Ex-secretário de Agricultura do Estado na gestão passada, também petista, o hoje deputado disse que não fazia sentido a especulação que atribuía às atividades do agronegócio a queda no nível dos rios locais, colocando-a no plano lógico da mais longa estiagem que afeta já várias regiões do Estado sem solução aparente.

Bastou lembrar que o trabalho da propriedade invadida é avalizado por outorgas e licenças concedidas pelo próprio do governo do Estado que levam em conta o cuidado e o impacto com o meio ambiente para desmontar uma tese quase mística que começa a ganhar corpo, principalmente entre ambientalistas, e parece começar a ser utilizada por oportunistas de todas as espécies de que o agronegócio na Bahia é o responsável pelo flagelo da seca, idéia que pode ser desmontada pelo reconhecimento de que, pelo contrário, ela o procede em muitas décadas, quando, inclusive, ainda não se havia iniciado a exploração agrícola agrícola em escala industrial no Estado.

O lamentável é que, não fosse o discurso firme do deputado do PP, associado a mobilizações que iniciou envolvendo, entre outras instâncias, a Comissão de Agricultura, que preside no Legislativo baiano, no sentido de tornar efetivas as providências anunciadas contra o crime, o governador ficaria praticamente como uma voz isolada em seu grupo político de origem, situação tanto mais desconfortável quando se sabe que seus adversários viram em todo o episódio uma oportunidade ímpar para desgastá-lo, inclusive na campanha estadual do próximo ano, o que vai se tornar imensamente mais fácil caso as medidas anunciadas pelo governo não se tornem efetivas.

* Artigo publicado originalmente pela Tribuna da Bahia.

Raul Monteiro*

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