7 de setembro de 2017, 09:19

EXCLUSIVAA desmoralização do acordo Janot-Joesley, por Raul Monteiro

Foto: Divulgação/Arquivo

Joesley e Janot, nomes que remetem a dupla caipira em xeque perante o país

Diz o ditado que nada que começa errado pode acabar certo. E ele cai como uma luva para este absurdo que foi o acordo de delação premiada celebrado pelo procurador geral da República, Rodrigo Janot, com os irmãos Joesley e Wesley Batista, da J&F, agora em xeque exclusivamente por gravações acidentais feitas pelo primeiro com o auxílio de um subordinado também delator. Não podia prosperar um acerto excessivamente benevolente com empresários tão corruptos quanto falastrões que fugiu do padrão de todos os outros acertados anteriormente pela Procuradoria Geral da República e representa mais um aceno à impunidade.

Pelo contrário, exatamente pelo poderio financeiro adquirido pelos donos da JBS, tudo decorrente de aportes fantasticamente generosos feitos pelo BNDES à holding nos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff, que chegaram à cifra de R$ 8 bilhões, é que sobre eles deveria ter se fechado de forma mais rápida e dura o cerco por parte do procurador-chefe. Não bastasse isso, nunca pareceu pacífico que um procurador da República e braço direito de Janot, renunciasse a seu cargo vitalício e muito bem pago para se tornar, de uma hora para outra, sócio da empresa de advocacia que defendia os irmãos Batista.

E o pior de tudo: defendendo a empresa sobre cujo acordo de leniência trabalhara diretamente enquanto atuou na PGR. Da mesma forma que não podiam ser aceitos como razoáveis os argumentos de Janot segundo os quais a revoltante imunidade penal que impediu os corruptores de irem para a cadeia, punição a que foram submetidos tantos outros empresários cujo nível de corrupção da classe política nem se comparou ao exercido pelos donos da JBS, lhes fora dada exatamente porque eles condicionaram a entrega de informações importantes à garantia de que deveriam ficar livres e impunes.

Como se a bandidos e corruptores comprovados fosse dado o direito de impor à Justiça e à lei suas próprias exigências. Tudo isso, curiosamente, passando batido pela mídia, em especial a Rede Globo, que impõe a agenda política do país e, associando-se a Janot e aos Batista numa campanha determinada pela deposição do presidente Michel Temer (PMDB), deu o aval e a proteção às ações do procurador que bloquearam, em nível nacional, qualquer discussão crítica sobre o que se processava. Tudo errado, a começar do grampo que os Batista fizeram de Temer e de outros políticos, quando deveriam, primeiro, delatar tudo o que haviam praticado.

A sensação que se tem hoje, corroborada pela desmoralização de tudo o que se fez no plano do Ministério Público Federal em relação à poderosa JBS, é que, independentemente da fragilidade moral de Michel Temer, tanto ele quanto o senador Aécio Neves (PSDB-MG), outro de que não se pode fazer qualquer tipo de defesa, foram utilizados, a partir dos grampos de que foram alvo da parte de Joesley, como uma verdadeira cortina de fumaça para encobrir o plano de fuga e liberdade dos Batista para os Estados Unidos. Como o Brasil é o país do imponderável, um acidente ocorre, impondo a imediata revisão do acordo, o que deve levar os donos da JBS à cadeia, onde já deveriam estar há muito tempo.

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